O pai levanta de madrugada, inquieto com a árdua e inacreditável missão que teria pela frente. Taciturno, dirige-se aos seus servos e a seu filho, conduzindo-os consigo ao lugar que Deus lhe dissera. Assim, chegando lá, contempla o lugar; seus olhos o alcançam com firmeza e decisão, mesmo de longe.
O patriarca, depois disso, entende que, agora, a jornada deve ser seguida apenas por ele e por seu primogênito, então, diz a seus servos:
_”Ficai-vos aqui com o jumento, e eu e o moço iremos até ali...”. Mas promete retornar.
Então, tomando consigo a lenha do holocausto, o fogo e o cutelo, puseram-se a andar.
Lado a lado os dois caminham, pai e filho, sacrificador e sacrifício, amigos, íntimos, chegados. Um silêncio perturbador se apodera dos dois; pode-se ouvir as batidas do coração de ambos, até que o filho rompe-o e, com palavras bastante contundentes, inquire o pai com certa humildade e inocência:
_Pai, “eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto?”
O pai não hesita:
_Filho, “Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho”!
Ambos continuam, juntos no caminho. O silêncio novamente pode ser tocado. Uma miscelânea de pensamentos – fixos, confusos, curiosos, esperançosos –, ultrapassa as páginas gerando grande expectativa nos leitores.
A cena se desenrola, então: o pai deita o filho, amarra-o e pega o cutelo. Tudo está pronto. A decisão é única e irrevogável no vale da decisão! Contudo, no âmago do patriarca, um sentimento profundo, discreto, mas real, que o consola: de alguma maneira, a certeza de que ambos retornarão.
Porém o que precisava ser feito tinha que ser feito! O pai, portanto, ousa.
Mas, uma voz forte brada dos céus e diz:
_”Abraão, Abraão! E ele responde: “Eis-me aqui”.
_”Não estendas a mão sobre o moço e não faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus e não me negaste o teu filho, o teu único”.
Imagino que lágrimas correm dos seus olhos. Pai e filho, provavelmente, se abraçam. Os céus estremecem. E, exatamente aqui, Deus inicia algo de extraordinário no coração da humanidade a despeito das bases de sua teologia: somente pela fé, pela crença na sua provisão é que os homens poderiam estabelecer uma relação de mão dupla com Ele. Nada mais seria tão útil e obrigatório como a fé no invisível.
Dessa maneira, Deus deseja iniciar uma caminhada conosco, conduzindo-nos até o lugar que Ele deseja que estejamos para o cumprimento pleno de suas promessas.
Impactada por reflexões mais profundas do que posso suportar, encerro este texto apenas com uma convicção:
Em algum momento, em algum lugar, teremos que estar no vale da decisão, no monte do holocausto. Lá, nós próprios saberemos quem somos, porque Deus, já sabe.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
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